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Quem controla o controle nuclear?

Fotografia tirada por satélite da central nuclear Fukushima I lançando vapor radioativo no dia 14 de março, foto por Digital/GlobeEnquanto o Japão enfrenta um acidente nuclear que pode ser o pior da história, parece evidente que qualquer debate sobre a segurança da energia atômica deveria abordar a independência dos órgãos reguladores. No dia 26 de abril de 1986, vários incêndios e explosões na central nuclear ucraniana de Chernobyl liberaram material radioativo que se espalhou sobre a Europa oriental e ocidental, especialmente na própria Ucrânia, Bielorússia e Rússia, que na época eram repúblicas soviéticas. Após 25 anos, o reator número quatro de Chernobyl continua desprendendo radioatividade apesar de estar sepultado sobre uma grossa mas deteriorada cobertura de concreto armado. Estados Unidos e União Europeia tentam conseguir mais de US$ 2 bilhões para construir um sarcófago permanente que contenha a radiação. O desastre de Chernobyl costuma ser atribuído à tecnologia obsoleta e à falta de transparência característica do regime soviético.


O acidente na central japonesa de Fukushima I, operada pela Companhia de Energia Elétrica de Tóquio (Tepco), ocorreu em razão dos danos causados pelo terremoto de nove graus na escala Richter e ao imediato tsunami do dia 11. Porém, “a Tepco não tem os melhores antecedentes de segurança ou transparência na informação”, disse Mycle Schneider, analista de políticas energéticas e nucleares radicado em Paris que trabalha habitualmente no Japão.

Em 2002, descobriu-se que a Tepco falsificava informação sobre segurança e a empresa foi obrigada a fechar seus 17 reatores, incluídos os de Fukushima I, que fica 240 quilômetros ao norte de Tóquio, Leste do país, no litoral do Pacífico. Executivos dessa empresa admitiram ter apresentado cerca de 200 relatórios técnicos com dados falsos nas duas décadas passadas. A manobra foi descoberta porque um engenheiro norte-americano que trabalhava na Tepco a divulgou, disse Mycle ao Terramérica.

Em 2007, um terremoto de 6,6 graus obrigou a Tepco a fechar os sete reatores da maior central nuclear do mundo, na costa Oeste do Japão. A usina de Kashiwazaki-Kariwa foi fechada por 21 meses para realização de reparos e testes adicionais contra terremotos. Somente quatro de seus reatores voltaram a operar. “Não existe um único lugar do Japão que não seja propenso a terremotos”, disse Mycle.

Este país obtém um terço de sua eletricidade de 55 reatores nucleares, o que o coloca em terceiro lugar, depois da França, com 59, e dos Estados Unidos, com cerca de 100. O Japão não tem petróleo, gás natural, nem carvão, e é um grande consumidor de energia. O país planeja construir outros 15 reatores. Em outras instalações atômicas japonesas ocorreram falhas.

Em 2004, um acidente matou cinco trabalhadores. Em 1996, outro provocou uma chuva radioativa que alcançou os subúrbios do nordeste de Tóquio, mas houve pouca repercussão porque o governo proibiu a imprensa de divulgar a informação, disse o jornalista Yoichi Shimatsu, ex-editor do The Japan Times Weekly em um artigo publicado no The 4th Media.

Os ambientalistas japoneses protestam há muito tempo contra regulações inapropriadas e a cultura da indústria nuclear de encobrir seus erros. O problema é que as empresas do setor, como a Tepco, e as agências reguladoras do governo são “essencialmente o mesmo”, afirmou ao Terramérica o presidente da não governamental Coalizão Canadense para a Responsabilidade Nuclear, Gordon Edwards. Essa situação se repete no Japão, Canadá, Estados Unidos e em outros países, acrescentou Gordon. “Há poucos especialistas nucleares independentes no mundo. Todos trabalham para a indústria, ou já trabalharam e agora são reguladores”, ressaltou.

O Canadá tem uma grande indústria nuclear de propriedade estatal, com 17 reatores que fornecem 15% da eletricidade do país. O governo canadense vendeu reatores Candu a vários países, entre eles Argentina e, mais recentemente, China. As centrais nucleares do Canadá são alvo de múltiplos reparos, todos eles caros, e também de fechamento, principalmente por vazamento. Não há vítimas fatais, mas os custos com reparação chegam a milhares de milhões de dólares.

A indústria e as agências de fiscalização não têm interesse em educar o público ou os governantes, disse Gordon. “Nunca explicam que a radioatividade não é algo que se pode apagar. Não explicam que mesmo quando se fecha um reator este continua gerando enorme quantidade de calor que deve ser eliminado para impedir a fusão do combustível”, destacou.

Um claro exemplo é o reator número quatro de Fukushima I, que estava fechado desde dezembro. Entretanto, o combustível já usado imerso nas piscinas de armazenamento começou a esquentar quando o sistema de refrigeração parou de funcionar por causa do terremoto. Para John Luxat, especialista em segurança nuclear da Universidade McMaster, no Canadá, os prédios de Fukushima resistiram bem, mas houve um problema com o gerador elétrico que deveria alimentar o sistema de esfriamento.

O Canadá tem uma importante reguladora, que é a Comissão Canadense de Segurança Nuclear (CNSC), encarregada de fazer cumprir as normas, disse o especialista ao Terramérica. Para dirigi-la, o governo designa especialistas da indústria e de outros setores. Toda nova norma eleva consideravelmente os custos, admitiu John, que trabalhou na indústria nuclear canadense.

“Em 2008, quando a presidente da CNSC Linda Ken tentou colocar as regulamentações canadenses em linha com os padrões internacionais, o governo a destituiu”, disse ao Terramérica o analista nuclear do Greenpeace Canadá Shawn-Patrick Stensil. Uma das mudanças que ela promoveu foi ordenar o uso de geradores de apoio alimentados a óleo combustível caso houvesse falha elétrica após um terremoto, acrescentou.

“A independência da Comissão ficou comprometida com a designação de um presidente favorável à indústria nuclear”, afirmou. A CNSC e a indústria se negam a divulgar seus estudos sobre segurança para uma avaliação independente, argumentando que é muito perigoso torná-los públicos, declarou Shawn-Patrick.

“A indústria sempre exagera a segurança e os benefícios, e subdeclara os custos e os riscos”, disse ao Terramérica Mark Mattson, da organização não governamental Lake Ontario Waterkeeper. “É impossível conseguir que forneçam evidências que sustentem seus argumentos”, afirmou.

A maioria dos reatores nucleares do Canadá está na região da Grande Toronto, no leste do país, onde vivem quase seis milhões de pessoas. N final deste mês acontecerão audiências públicas para discutir a construção de mais dois reatores, embora a decisão de construí-los já tenha sido tomada na esfera política, explicou Mark. “Na realidade, não precisamos dessa energia adicional. O único motivo para isto ir adiante é incentivar a indústria”, destacou. (Por Stephen Leahy, correspondente da IPS - Terramérica - foto por Digital/Globe)